4 de jul de 2010

Resenhando: Bruce Springsteen, Leila Pinheiro, LCD Soundsystem, Rodrigo Maranhão, She & Him

“London Calling – Live in Hyde Park” – Bruce Springsteen
Eu conheço muita gente que guarda certa desconfiança com Bruce Springsteen. “O Rambo do rock?” Tô fora...” Realmente, aquele jeitão de cantar pode incomodar. Mas é inegável que os shows do The Boss são muito divertidos. Pra começar, o cara não fica menos do que três horas em cima de um palco. E, ainda por cima, mesmo quando você acha que não conhece nenhuma das músicas, pelo menos metade do roteiro, você já ouviu em algum lugar. O novo DVD/BD de Springsteen, “London calling – Live in Hyde Park” não foge à regra. São 27 músicas espalhadas em três horas de show realizado no parque londrino, na edição do Hard Rock Calling do ano passado, e mais duas em Glastonbury e no Giants Stadium. O repertório passeia por sucessos antigos (“Rosalita (Come out tonight)”, “Born to run”, “Badlands”, “Out in the street” e “Glory days”) e músicas do último disco do The Boss (na verdade, apenas duas: “Outlaw Pete” e “Working on a dream”), além da versão para “London calling”, do The Clash, que abre o show. Comparando com o DVD “Live in Barcelona” (2003), esse “London calling” tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que imagem e som são infinitamente superiores – a imagem no BD chega a ser assustadora de tão nítida. A desvantagem é que como esse show foi realizado no Hyde Park, a distância entre palco e plateia é imensa (até Springsteen reclama no show). Pelo menos, chega a ser emocionante ver o Boss descer as escadas e correr até pertinho do público para colocar o microfone na boca de um moleque com uns seis anos de idade durante “Waitin’ on a sunny day”. Esse será um fã de rock para sempre.

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"Meu segredo mais sincero” – Leila Pinheiro
Na efeméride dos 50 anos de Renato Russo, todo mundo sabia que não ia faltar lançamento envolvendo o nome do ex-líder da Legião Urbana. Embora não tenha saído o DVD com os shows do Metropolitan em 1994, as lojas receberam o fraquíssimo “Duetos” e agora esse “Meu segredo mais sincero”, que traz 15 canções da Legião e de Renato na voz de Leila Pinheiro, que, diga-se, era bem amiga do falecido compositor. Editado pela Biscoito Fino, o CD navega entre altos e baixos. A voz de Leila Pinheiro é boa, mas ficou uma sensação de que algumas músicas não foram muito bem escolhidas. “Daniel na cova dos leões” (que conta com a guitarra de Dado Villa-Lobos), por exemplo, ficou insossa com o seu arranjo meia-boca. Do mesmo mal padecem “Há tempos”, que perdeu a força de sua (pesada) letra, e “Metal contra as nuvens”, que ficou artificial demais. Por outro lado, “Meu segredo mais sincero” reserva alguns belos momentos, especialmente na pouco conhecida balada “Quando você voltar” (do álbum “A tempestade ou O livro dos dias”, de 1996), que mistura o piano e a voz de Leila à guitarra de Herbert Vianna. “Pais e filhos”, apenas com o piano de Leila e o violão de aço de Cláudio Faria também ficou bonita. Leila Pinheiro ainda rebobina “Tempo perdido”, que ela já havia gravado anteriormente no álbum “Alma” (1988). Enfim, uma bonita homenagem, que pode ficar ainda melhor em cima do palco. Só não precisava de mais um dueto do além em “La solitudine”, né Leila?

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“This is happening” – LCD Soundsystem
Uma música com mais de nove minutos de duração, que se chama “You wanted a hit”, e que demora mais de três minutos para ganhar voz. Isso pode ser uma boa síntese de “This is happening”, novo álbum (cheio de antíteses) do LCD Soundsystem, que vazou na internet há meses, mas que chegou às lojas brasileiras na semana passada. Tudo bem, nesse novo trabalho, James Murphy e seus colegas continuam divertidos (irônicos!), mas não espere muito daquela alegria dos dois primeiros discos do conjunto – “LCD Soundsystem” (2005) e “Sound of silver” (2007). “This is happening” é um álbum divertido e dançante, mas também difícil. A diferença é que o LCD consegue fazer canções que beiram os 10 minutos de duração e, ainda assim, manter o interesse do público. Poucos artistas conseguem isso. E por que eles conseguem? Simplesmente porque misturam uma tonelada de referências, timbres interessantes e letras inteligentes na mesma embalagem. Exemplo? Pegue logo a faixa de abertura, “Dance yrself clean”, e veja como funciona. “All I want”, que mistura pop, rock, eletrônica, disco, dance, talvez seja a melhor de “This is happening”, seguida de perto por “Pow pow”, na qual a banda de Nova York soa ridiculamente deliciosa ao incorporar clichês da dance-music em seu universo particular. E ainda há espaço para “Drunk girls”, que deve ser o tal hit que a gravadora pediu. Não precisava. É a pior faixa do disco. E tomara que esse não seja o último da banda, como James Murphy tem anunciado.

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“Passageiro” – Rodrigo Maranhão
Começo a falar de “Passageiro”, novo trabalho de Rodrigo Maranhão, pedindo perdão pelo atraso. O álbum só caiu em minhas mãos nessa semana, e não poderia deixar de traçar algumas mal traçadas sobre ele. Pra começar, vamos ao que interessa: “Passageiro” é um dos grandes álbuns lançados no país nesse ano. Para quem acha que samba é coisa de bamba, fica um alerta: é mesmo. E Rodrigo Maranhão, mesmo com os seus 30 anos de idade, já mostra que é bamba. Se “Bordado” (2007), o seu primeiro álbum, já tinha sido uma ótima estreia, em “Passageiro”, Rodrigo Maranhão vai além. Muito além. Muito bem produzido por Zé Nogueira, e contando com músicos do naipe de Leandro Braga (piano), Marcos Suzano, Marçal (ambos na percussão), Ricardo Silveira (guitarra), Silvério Pontes (trompete) e Marcello Gonçalves (violão de sete cordas), o álbum transita do samba (na inteligente “Samba quadrado”, que, aliás, cairia muito bem na voz de Ney Matogrosso, e “Um samba pra ela”) ao fado (na delicada “Quase um fado”), passando pelo baião (no “sambaião” “Sonho”), xote (“Maria sem vergonha”), valsa (na lindíssima e melhor faixa do CD, “Valsa lisérgica”, escrita a quatro mãos com Pedro Luís), entre outros estilos. Rodrigo Maranhão já compôs músicas que foram sucesso nas vozes de Zélia Duncan, Roberta Sá, Maria Rita, Fernanda Abreu e Pedro Luís. Mas o melhor mesmo é ouvir as canções na voz do próprio Rodrigo Maranhão, que, certamente, é o melhor compositor de sua geração.

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“Volume two” – She & Him
Uma vez eu li alguma crítica do jornalista André Forastieri, na qual ele dizia que se uma música não chamava a sua atenção nos três primeiros segundos, ele não perdia mais tempo escutando. Com a quantidade de coisa que tenho para ouvir aqui, tenho tentado adotar essa tática do Forastieri, embora reconheça que sou muito mais paciente que ele. Contudo, não precisei ser paciente ao ouvir o novo álbum do She & Him, “Volume Two”. A dupla de Portland, formada por Zooey Deschanel (vocais e piano) e M. Ward (guitarra) fez algo bem difícil: gravar um segundo álbum superior ao primeiro (lançado em 2008), que já era excelente. A prova está logo na primeira faixa, “Thieves”, um folk-spaghetti sensacional que já cativa o ouvinte em um segundo (pode acreditar, Forastieri). Parece até trilha de um filme de Quentin Tarantino. Difícil pinçar destaques em um álbum tão hermético. Mas para eleger as minhas prediletas, fico com a fofinha “In the sun”, a byrdiana “Don’t look back”, a beachboysiana “Ridin’ in my car”, a joanbaesiana “Lingering still” e a deliciosa versão para “Gonna get along without you now” (aquela que foi parodiada nas festas de aniversário para a imbecilizada “fulano, eu vou comer seu bolo...”). E vale registrar que a edição nacional vem com uma versão deliciosa para “I can hear music”, dos Beach Boys. Enfim, “Volume two”, com todas as suas referências, é obrigatório. O único defeito do álbum é ser viciante.

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Em seguida, “London calling”, faixa de abertura do DVD/BD “London calling – Live in Hyde Park”, do Bruce Springsteen.