27 de jun de 2010

Resenhando: U2, The Cure, “O Bem Amado”, Dire Straits, Paul Weller

“360º at the Rose Bowl” – U2
Se o U2 está perdendo milhões e milhões com o cancelamento da perna norte-americana da turnê “360º”, um pouco do prejuízo – tanto por parte dos fãs como por parte da banda – pode ser compensado com o DVD/BD “U2 360º at the Rose Bowl”. O vídeo traz o registro completo do show que aconteceu em outubro do ano passado no estádio em Pasadena. O que impressiona mesmo é o tamanho do palco. Certamente ninguém nunca fará algo parecido. Já o repertório é aquele que o U2 apresenta em seus shows turnê atrás de turnê, ou seja, muitos sucessos (“Beautiful Day”, “Vertigo”, “Sunday bloody Sunday”, “One”, “Where the streets have no name”) e canções do mediano último álbum (“No line on the horizon”, “Magnificent” e “Moment of surrender”). Não tem como o fã reclamar. A edição do vídeo, em alguns momentos, peca um pouco por seus excessos. Não precisava de tanto. O palco e a iluminação já dariam conta do recado. O áudio é a verdadeira bola fora. Pelo menos no blu-ray, o som fica estourando nas frequências mais graves. Uma falha realmente grave no primeiro BD do U2. Tanto o BD quanto o DVD duplo apresentam mais umas duas horas de extras (além das mais de duas horas de show), incluindo a primeira música do show (“Breathe”), inexplicavelmente cortada da edição final, um documentário razoável sobre a criação da turnê, bem como videoclipes das músicas novas e os respectivos making ofs. Apesar dos deslizes e das repetições no repertório, “U2 360º at the Rose Bowl” é diversão garantida.

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“Disintegration” – The Cure
Outro dia me perguntaram quais eram os meus cinco álbuns prediletos. Eu respondi: “os cinco eu tenho que pensar, mas tenho certeza que ‘Disintegration’, do The Cure, está entre eles.” Na tristeza ou na alegria, não abro mão dessa obra-prima que Robert Smith e companhia lançaram em 1989, e que tem em “Plainsong” uma das melhores aberturas de um disco de rock em todos os tempos. E a edição de luxo que saiu agora lá fora está a altura do álbum. Para comemorar (atrasado) os 20 anos de “Disintegration”, o Cure colocou nas lojas uma edição tripla para fã nenhum reclamar. O primeiro CD traz o álbum original remasterizado. O som ganhou mais corpo e ficou melhor. Já o CD 2 traz sobras de estúdio do álbum, como versões instrumentais das faixas do CD original (gravadas na casa de Robert Smith ou no estúdio) e a voz-guia de Smith em músicas como “Plainsong” e “Lullaby”. Além de novas versões para faixas que estão no álbum, este CD ainda traz raridades que não entraram no disco, como “Fear of ghosts” e “Delirious night”. O terceiro disco do pacote foi o que mais gostei. Trata-se de uma apresentação ao vivo na Wembley Arena, em 1989, com a íntegra do álbum. Não é melhor do que o de estúdio (e empata pau a pau com a apresentação em Berlim, presente no DVD/BD “Trilogy”), mas é ótimo para ver como eles transpuseram o álbum para o palco na época do lançamento. Essa edição de luxo de “Disintegration” certamente não sairá no Brasil. Por isso, os fãs devem guardar algum para encomendar a edição importada. Vale a pena.

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“O Bem Amado” – Vários
Metade dos filmes brasileiros (pelo menos os que não se repetem na mesmice drogas / polícia) deve ter música interpretada por Caetano Veloso em sua trilha sonora. Essa parece ser a regra. E em “O Bem Amado”, a situação não é diferente. O filme estrelado por Marco Nanini ganhou um CD com dez faixas incluindo “Esta Terra”, composta por José Almino e Caetano Veloso, e cantada pelo segundo. A faixa é interessante, e não esbarra no populacho de “Você não me ensinou a te esquecer”. Zélia Duncan também engrossa o caldo da trilha, com “A vida é ruim”, composta por Caetano. A canção (de estética propositadamente brega) ficou um pouco over com o excesso de cordas. Já Zé Ramalho tenta atualizar “Carcará” com aquele seu jeitão típico, e acaba não acrescentando nada à música de João do Valle e José Cândido. Mallu Magalhães deixa “Nossa canção” (Luiz Ayrão) agradável, cheia de ukuleles, violões havaianos e escaletas. Mas a grande sacada de “O Bem Amado” acaba sendo “A bandeira do meu partido”, composta e interpretada por um debochado Jorge Mautner. As vinhetas “Jingle de Odorico” (com Thalma de Freitas, Nina Becker e Cecília Spyer) e “Boogie sem nome” (com Leo Jaime, Selvagem Big Abreu, Bob Gallo e Leandro Verdeal) devem cair bem dentro do filme, mas, no CD acabam perdendo o propósito. Melhor ficar com “O Bem Amado” original, com canções compostas por Toquinho e Vinicius de Moraes, e arranjos de Rogério Duprat. Esse sim é obrigatório.

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“Alchemy” – Dire Straits
Na hora de citar aqueles discos clássicos ao vivo da história do rock, “Alchemy”, do Dire Straits, constantemente aparece nas listas. Não é para menos. Eu mesmo, na época, em que nem sabia o que era rock, já tinha o K7 duplo. Gravado em 1983 (e lançado no ano seguinte), “Alchemy” traz uma apresentação da banda britânica no Hammersmith Odeon, em Londres. Na época, Mark Knopfler e seus colegas estavam divulgando o álbum “Love over gold”. A banda já tinha quatro discos na bagagem, e acumulava sucessos como “Sultans of swing”, “Tunnel of love”, “Romeo and Juliet” e “Private investigations”. Todas essas canções estão presentes, em versões longas e turbinadíssimas, nesse “Alchemy”, que, agora, ganha a sua primeira versão em DVD e em BD. O som estronda nos alto-falantes, e a imagem também foi restaurada. Lógico que não dá para esperar aquela imagem cristalina no BD, mas posso garantir que está bem melhor do que no velho VHS ou LD. Além do show completo, o vídeo traz um documentário produzido pela BBC, quando do lançamento do segundo álbum da banda (“Communiqué”, de 1979), além de versões alternativas de “Sultans of swing” e “Tunnel of Love”, gravadas no The Old Grey Whistle Test. A única coisa que não deu para entender foi a omissão de “Love over gold”, já que a gravação da música nesse mesmo show no Hammersmith Odeon existe em outros DVDs da banda.

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“Wake up the nation” – Paul Weller
Sempre que sai um novo álbum do Paul Weller, aquelas revistas britânicas saem correndo para decretar que é o melhor álbum solo do ex-líder do The Jam. Mas, dessa vez, eu tive que concordar. “Wake up the nation”, na minha opinião, é mesmo o melhor álbum de Paul Weller. Talvez até melhor do que os gravados com o The Jam. Diferentemente do gordurosíssimo (e bastante elogiado pelos britânicos, à época do lançamento) “22 dreams”, em “Wake up the nation”, Weller apresenta 16 canções coesas, curtas e secas. O início, com “Moonshine” já dá uma boa amostra que o cantor e compositor está em grande forma. Em “Fast car / Slow traffic”, Paul Weller tem um de seus grandes momentos, para qualquer fã do The Jam delirar. Ainda mais quando tomar conhecimento que Bruce Foxton (ex-The Jam) toca baixo nessa faixa. Outras músicas que merecem destaque são as lentas “No tears to cry” e “Andromeda”, bem como a épica “Find the torch, burn the plans”, e a instrumental viajante “Whatever next”. “Wake up the nation” nos deixa com mais vontade de assistir um show de Paul Weller, depois do cancelamento de sua apresentação no Tim Festival de 2008. Quem sabe agora, já que temos tantos festivais em São Paulo no final do ano...

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Logo abaixo, a faixa “Fast car / Slow traffic”, do álbum “Wake up the nation”, do Paul Weller.