5 de out de 2008

CD: “ÁLBUM MUSICAL 2” (FRANCIS HIME) – ESCOLHIDOS A DEDO...

Em 1997, Francis Hime lançou o disco “Álbum Musical”, no qual dava nova vida a velhos sucessos ao lado de artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, entre outros. No repertório, pérolas que muita gente nem desconfiava ser da autoria de Francis, como “Vai Passar”, “Meu Caro Amigo” e “Trocando Em Miúdos”. Agora, Francis coloca nas lojas o seu “Álbum Musical 2”. Se as canções aqui, de fato, são pouco conhecidas (e isso não faz diferença alguma), o mesmo não se pode dizer com relação aos intérpretes escolhidos para cantá-las.

De Zeca Pagodinho a Bibi Ferreira, passando por Ed Motta, Adriana Calcanhotto, Lenine, Simone e Mart’nália, os intérpretes escolhidos formam um verdadeiro “dream team” da MPB, que complementa os medalhões do primeiro volume. E o próprio Francis, no release do disco, fala sobre o repertório e a escolha dos intérpretes: “É a síntese de um período importante na minha carreira, pois reúne minhas canções mais representativas, de 1963 à década de 80, mas priorizando as menos conhecidas, o ‘lado B’. Escolhi os intérpretes em função das músicas, quase como se tivesse composto aquelas canções para cada um deles. Uma coisa meio premonitória”.

O disco abre logo com um de seus melhores momentos. “Amor Barato” é interpretado por um Zeca Pagodinho que, praticamente, se apropria da canção. Não foi à toa que no encarte do CD, Francis – que participa, nos arranjos e no piano, de todas as canções – escreveu: “Este samba é de 1981. Eu fiz a música, e Chico a letra. Na ocasião, tanto ele como eu gravamos em nossos respectivos discos, mas depois de tantos anos, sinto que o samba encontrou o seu intérprete ideal: só podia ser o Zeca Pagodinho”.

Mas não foi somente Zeca Pagodinho que se destacou em “Álbum Musical 2”. Adriana Calcanhotto é responsável por outro grande momento do disco. Com um arranjo suave, calcado no saxofone de Jessé Sadoc, a cantora gaúcha interpreta “Saudade de Amar” (parceria de Francis com Vinícius de Moraes) de forma singela. Teresa Cristina, no samba “Promessas, Promessas” (parceria com Abel Silva) e Martn’ália – que se afastou do samba, para arriscar uma espécie de rumba-salsa – em “Pau-Brasil”, são outros dois destaques do álbum. Já Luiz Melodia mostra o seu poder de fogo em “O Rei de Ramos”, parceria entre Francis, Chico Buarque e o escritor Dias Gomes.

Até mesmo Ivete Sangalo, que, em princípio, pelo seu estilo musical, pode parecer uma nota dissonante nesse “Álbum Musical 2”, dá conta do recado na dificílima “Quadrilha”, que, aliás, ganhou um arranjo que consegue ser rico e popular ao mesmo tempo. Uma conclusão aqui é clara: nada como o próprio homenageado estar por detrás do projeto. Realmente impressiona como cada canção, salvo raríssimas exceções, combina com a voz e com o estilo musical do intérprete escolhido. Outro exemplo de ótima escolha é Lenine interpretando “Um Carro De Boi Dourado”, única parceria de Francis Hime com Gilberto Gil.

Ruy Guerra, outro parceiro ilustre de Francis Hime também é lembrado em “Álbum Musical 2”. “À Meia Luz” ganhou uma versão que conta apenas com o piano de Francis e a voz de Ed Motta. A intimidade que o cantor mostra com a canção tem justificativa, eis que ele já a havia cantado no show de 60 anos de Francis Hime, que aconteceu no Canecão em 1999. “Lindalva”, parceria com Paulo César Pinheiro, que em 1977 foi censurada por causa das palavras “nusinhos em pêlo”, ganhou uma interpretação correta de Paulinho Moska, o mesmo acontecendo em “Mariposa”, parceria de Francis com Olivia Hime, na voz de Mônica Salmaso.

“Álbum Musical 2” ainda tem um encerramento à altura, com “Viajante Das Almas”, letra da atriz Fernanda Montenegro e que foi musicada por Francis Hime. Em um poema que fala sobre o ofício de ser artista, ninguém melhor do que Bibi Ferreira para interpretá-la. E, claro, a dama dos palcos não decepciona.

Apesar de não aparecer muito na grande mídia, Francis Hime é, inegavelmente, um dos grandes compositores da nossa Música Popular. A idéia de gravar discos com artistas mais populares cantando as suas canções é excelente. E, mesmo que você não conheça a obra de Francis Hime, pode ter certeza que ele tem material suficiente para gravar mais uns dez ‘álbuns musicais’ da mesma qualidade deste. O único problema será encontrar intérpretes à altura de suas pérolas. Isso não será nem um pouco fácil.

Abaixo, a canção “Viajante Das Almas”, dueto com a cantora Bibi Ferreira, que encerra “Álbum Musical 2”.

Cotação: ****

2 comentários:

danilo disse...

Ainda não ouvi e já gostei.

O disco de 97 é primoroso, aliás toda a obra do Francis é primorosa.

Anônimo disse...

Simone merecia música melhor do que essa ultrapassada Maravilha. Nem o Fidel acredita na beleza de Cuba detonada depois de anos de revolução.