23 de ago de 2008

CD: “MODERN GUILT” (BECK) – QUANDO O MENOS É MAIS

Beck sempre foi um artista brilhante. Gravou alguns discos antológicos mas, verdade seja dita, escorregou em outros. E sempre quando escorregou, o motivo foi um só: excesso. Com tantas influências na cabeça, o artista norte-americano, às vezes, grava trabalhos confusos demais, e o seu penúltimo disco, “Information”, é um deles.

Já o seu mais novo trabalho, “Modern Guilt” é absolutamente o oposto de seu predecessor. Em “Modern Guilt”, Beck soa coeso e maduro, como há alguns anos se via. Assim, com a azeitada produção dividida com o DJ Danger Mouse, Beck gravou um dos melhores álbuns de sua carreira, que não fica nada a dever a clássicos como “Odelay” (1996) ou “Sea Change” (2002). E se muito do sucesso dos anteriores deveu-se à produção dos Dust Brothers e de Nigel Godrich, respectivamente, em “Modern Guilt”, os créditos vão para o DJ que é uma das duas metades do Gnarls Barkley.

De início, vale ressaltar que apesar dessa coesão, Beck não abandou as suas principais influências. Elas estão apenas mais discretas e dosadas – o discreto encarte do CD já dá uma pista do que pode ser ouvido nele. Ou seja, em “Modern Guilt” ainda é possível ouvir traços de hip-hop, folk, psicodelia, rock, country, entre outros. E parece que esse (de certa forma) minimalismo agradou bastante. Tanto que “Modern Guilt” chegou ao 4º lugar da parada da Billboard, e, graças a ele, Beck ingressou no top ten da parada britânica de discos pela primeira vez.

A All Music Guide classificou o novo trabalho como “uma efetiva dosagem da paranóia do século XXI”. Seja lá o que isso signifique, em “Modern Guilt”, Beck transita com muita segurança entre a experimentação e a economia, tudo embalado por aquelas batidas que só são possíveis encontrar em seus álbuns.

E a primeira faixa do álbum, “Orphans”, já mostra que a proposta de Beck nesse disco é realmente diferenciada. Com uma melodia parecida com o sucesso setentista “You’re So Vain”, de Carly Simon e a participação especial da cantora Cat Power, Beck manda uma batida simples acompanhada por singelos violões e alguns poucos efeitos. E, de certa forma, com algumas exceções, essa é a essência de “Modern Guilt” – e que também pode ser notada em faixas como “Modern Guilt” (o melhor vocal de Beck no álbum inteiro) e a balada “Volcano”.

Mas nenhuma das faixas de “Modern Guilt” se compara a “Gamma Ray”. Nela, é possível notar claramente a assinatura de Danger Mouse – se “Gamma Ray” estivesse em “The Odd Couple”, do Gnarls Barkley, ninguém estranharia. Misturando surf music ao ‘western spaghetti’, com um baixão esperto e uma letra muito viajante (“Come on little gamma ray / Standing in a hurricane / Yours brains are bored / Like a refugee from a house that’s burning”), a segundo faixa do disco é o grande destaque de “Modern Guilt”. Inclusive, é bem superior à única canção do álbum que foi assinada por Beck e Danger Mouse em conjunto, “Walls”.

E por falar em letras viajantes, nada se compara a “Chemtrails”, uma das melhores do álbum. Um pouco mais lenta (mas com alguns momentos pesados), com uma melodia que remete a um sonho, a sua letra (“All I can take from these scars is hope / But all I can see in this night are boats sinking / Down by the sea swallowed by evil”) encaixa na melodia como uma luva.

“Youthless” e “Replica” são outras duas músicas que se destacam em “Modern Guilt”. A primeira, cheia de efeitos, faz lembrar um pouco os bons momentos de “Odelay”. Já a segunda, cuja (estranha) sonoridade lembra um disco tocado de trás para frente remete a “Information” e seus (poucos) bons momentos.

E outra faixa que não pode passar em branco é “Soul Of a Man”. Com ela, Beck prova que, com suas guitarras distorcidas e bateria pesada, pode soar roqueiro com a mesma competência que transita em outros gêneros musicais. Inclusive, no meio da canção, há um discreto trecho da melodia de “Mr. Soul”, clássico da seminal banda de Neil Young, Buffalo Springfield. E isso não é para qualquer um...

Mas “Modern Guilt”, felizmente, pode ser para qualquer um. Para quem nunca curtiu (ou entendeu) os trabalhos anteriores de Beck, este novo disco fará com que o ouvinte menos acostumado a sonoridade do cantor norte-americano, comece a se interessar pela sua obra. E que tal começar ouvindo “Loser”, primeira faixa do primeiro álbum de Beck, e um dos maiores clássicos dos anos 90?

Abaixo, o videoclipe da canção “Gamma Ray”.

Cotação: ****1/2

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