20 de jun de 2010

Resenhando: Capital Inicial, Flaming Lips, Tulipa, Stone Temple Pilots, Carmen Miranda

“Das kapital” – Capital Inicial
Não se sabe se foi por causa do acidente de Dinho Ouro Preto, em outubro do ano passado, mas o Capital Inicial voltou mudado. Depois do fraco “Eu nunca disse adeus”, e do bom (mas burocrático) “Multishow ao vivo”, a banda de Brasília ataca agora com um álbum enérgico, roqueiro e curto. Curto e grosso. Com 35 minutos de duração, “Das kapital” remete aos bons tempos do Capital, com canções diretas. Sem muita perda de tempo. Apesar de ainda apostar no filão adolescente (diferentemente de bandas como Paralamas e Barão Vermelho), Dinho e seus colegas soam mais adultos no novo álbum. As letras (a maioria assinada pela dupla Dinho Ouro Preto / Alvin L.) estão melhores (“Por mais que se tente/ Não dá pra sair/ Depois de descobrir/ Que não há nada a provar”, de “Como se sente”, a melhor faixa do álbum), embora ainda pequem com algumas tolices juvenis, como em “Melhor” (“Eu tenho medo do mundo/ Eu tenho medo do que pode acontecer/ Eu tô cansado de tudo/ De tanto lutar e nunca vencer ”) ou na “Natasha” atualizada de “A menina que não tem nada”. A primeira faixa do álbum se chama “Ressurreição” – os acordes iniciais de guitarra lembram muito “Bichos escrotos”, dos Titãs – por conta da fantástica recuperação de Dinho. Mas, depois dos 35 minutos de “Das kapital”, dá pra dizer que, de certa forma, o Capital Inicial deu uma ressuscitada.

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“The dark side of the moon” – Flaming Lips
A notícia dando conta de que uma banda vai gravar (sem tirar nem pôr) um álbum clássico de outra banda pode parecer desanimadora. Ainda mais quando esse álbum é um clássico tão conhecido como “The dark side of the moon”. “Ih, que falta de imaginação”, alguém pensaria. Mas a partir do momento em que a banda é o Flaming Lips, as coisas mudam de figura. O conjunto liderado pelo doidaço Wayne Coyne não “regravou” a obra-prima do Pink Floyd. Eles a demoliram e a reconstruíram. Ficou apenas o conceito. Apenas? É como se você derrubasse uma casa e construísse outra completamente diferente, mas com a mesma decoração. E o resultado ficou muito bacana. “Breathe”, com um baixo pulsante, ficou sensacional, assim como “On the run”, que ganhou um arranjo disco absolutamente inusitado (e delicioso). Já “Money” ficou com um contorno futurista, por conta dos efeitos de voz de Coyne. E “Time”, com a adesão de Peaches (que também deixa “The great gig in te Sky” bem interessante) e de Henry Rollins, ficou (quase) tão viajante quanto a versão original do Pink Floyd. Este último também participa do encerramento, na dobradinha épica “Brain damage / Eclipse”. Tá bom, pode haver um lado menos escuro na lua.

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“Efêmera” – Tulipa
Cantora surgindo por aí é o que não falta na música brasileira, o que pode ser bom ou ruim. Ou até mesmo péssimo, quando surgem clones de Cássia Eller ou Marisa Monte – as duas prediletas das cantoras sem muita imaginação. Por outro lado, é animador ouvir cantoras originais, como Céu, Tiê e... Tulipa. A cantora radicada em São Paulo faz a sua estreia com um álbum que se está longe de soar popular, é bem interessante. Pelo menos metade dos créditos deve ir aos parceiros da cantora nesse álbum. Tulipa mostrou que não é boba, e se cercou de gente muito boa, como Kassin, Duani, Donatinho, Céu (que faz backing vocal em algumas canções) e o guitarrista (e irmão) Gustavo Ruiz, que também produziu o álbum. O grande mérito de “Efêmera” é que, nele, Tulipa foge dos arranjos convencionais, apresentando algo bem criativo, como em “Pedrinho”, cheio dos barulhinhos bons construídos por Dudu Tsuda. Já “Da menina” tem um quê de Mutantes, assim como a faixa-título atualiza a Jovem Guarda. Em canções mais convencionais, como “A ordem das árvores” e “Às vezes”, Tulipa mostra que pode soar popular sem perder a qualidade. E para dizer que nem tudo é tulipa, em “Efêmera”, a cantora bem que poderia dar uma lapidada em suas letras para o próximo álbum. Mas fica a certeza de que essa Tulipa não será tão efêmera assim.

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“Stone Temple Pilots” – Stone Temple Pilots
Quando o Stone Temple Pilots surgiu com o álbum “Core” (e o hit “Plush”), em 1992, a crítica acabou colocando a banda no mesmo saco do grunge, que surgia encabeçado pelo Nirvana. Para a banda, o rótulo deve ter caído bem. Àquela época... Hoje, com o grunge mortinho da silva, o que o STP faz é hard-rock, vigoroso, dos bons. Mas não era exatamente isso que ele fazia em “Core” e no álbum seguinte “Purple” (1994)? Pois bem, o novo álbum, lançado nesse mês, e que leva o mesmo nome da banda, não fica atrás dos dois (e mais consagrados) trabalhos da banda de Scott Weiland (vocal), Robert DeLeo (baixo), Dean DeLeo (guitarra) e Eric Kretz (bateria). Duvida? A primeira faixa já é esclarecedora. “Between the lines” (vídeo abaixo) é um rock sem firulas, muito bem gravado e com a típica pegada da banda. A seguinte, “Take a load off”, conta com um ótimo vocal (sim, ótimo!) de Weiland, e segue uma linha mais melódica – mas sem parecer farofa. A bem da verdade é que as 12 faixas de “Stone Temple Pilots” não diferem muito umas das outras, com exceção de “Cinnamon” (New Order puro) e “Maver”, uma baladona dispensável. O resto é algo bem parecido com o que o STP já fazia anteriormente. E nem precisava mudar mesmo. Bem-vindo aos anos 90.

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“Hoje” – Carmen Miranda
Carmen Miranda morreu em 1955. Já ouviu algum álbum gravado entre os anos 40 e 50? A sonoridade não é muito agradável, não é? Então, por que não transportar a magnífica obra de Carmen para uma sonoridade que dê mais prazer ao ouvinte? Não, não se trata, de descontruir a obra dela. Mas sim de atualizá-la com relação aos recursos tecnológicos. Ou seja, quando ela gravou seus clássicos, o máximo que a tecnologia podia fazer era registrar aquele sonzinho meia-bomba. E quem não teve a oportunidade de ver Carmen Miranda se apresentando ao vivo nunca terá a oportunidade de ouvir a sonoridade “verdadeira” da obra da cantora? Só terá a chance de ouvir os discos com a parca tecnologia disponibilizada à época? Não. A Biscoito Fino acabou de lançar “Hoje”, álbum com 14 canções cantadas por Carmen Miranda, com novos acompanhamentos (mas que são fiéis aos originais). Músicos como Henrique Cazes (que divide a produção com Ruy Castro, biógrafo da cantora – quer chancela maior que essa?), Luís Filipe de Lima, Beto Cazes, Ovídio Brito e Dirceu Leite dão a profundidade e a pegada que a música de Carmen merece. Agora sim dá pra fechar os olhos e imaginar Carmen Miranda no palco do Cassino da Urca. (Só não precisava a Biscoito Fino cobrar tão caro pelo CD, coisa que vem acontecendo com frequência.)

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Em seguida, a faixa “Between the lines”, do Stone Temple Pilots, gravada ao vivo no programa do David Letterman.