23 de out de 2008

CD: “PONTO DE PARTIDA” (SÉRGIO RICARDO) – UMA COMEMORAÇÃO MERECIDA

Para comemorar os seus quase 60 anos de carreira, Sérgio Ricardo lançou, pela gravadora Biscoito Fino, e com apoio da Petrobras, o CD “Ponto de Partida”, com vários de seus antigos sucessos em novas versões. Acompanhado por uma banda jovem, e com participações especiais de craques como Nicolas Krassik (violino), Edu Krieger (violão de sete cordas) e Hamilton de Hollanda (bandolim), Sérgio Ricardo deu nova vida, com arranjos modernos, às suas canções, que estavam tão (injustamente) esquecidas. A produção do álbum ficou a cargo de sua filha, Marina Lutfi.

Sérgio Ricardo é um dos grandes compositores da Música Popular Brasileira. Mas as suas canções nunca foram muito populares. Fazendo uma comparação rasa, Sérgio Ricardo está mais para Edu Lobo do que para Chico Buarque. Adepto das melodias intricadas, com influências da música africana, capoeira, baião, afrossamba, samba-canção, choro, samba, Sérgio Ricardo pode ser considerado uma enciclopédia em termos de variedade de estilos musicais.

Como se não bastasse tudo isso, Sérgio Ricardo, 75 anos de idade e mais de 30 discos nas costas, é um dos precursores da Bossa Nova. Quem teve a oportunidade de assistir aos shows de João Gilberto realizados há pouco no Brasil, com certeza ainda não se esqueceu da belíssima interpretação dele para “O Nosso Olhar”, uma das muitas pérolas de Sérgio Ricardo que, infelizmente, ficou de fora de “Ponto de Partida”. E só para o leitor ter a exata noção da importância de Sérgio Ricardo para a MPB, João Gilberto, em todos os quatro shows que realizou no Brasil, fez questão de citar o nome do colega e afirmar que ele é um dos maiores compositores de nossa música.

E quem ouvir “Ponto de Partida” vai poder desvendar todas essas influências que o cineasta (sim, Sérgio Ricardo é cineasta!) usa com tamanha naturalidade em grandes canções que vão desde “Poema Azul” e “Ausência de Você”, ambas de 1958, até hoje, com “Maria do Tambá”, que faz referência à antiga Ladeira do Tambá, atualmente uma avenida na favela do Vidigal, e que foi composta especialmente para o CD. Aliás, Maria Bethânia regravou “Poema Azul” recentemente em seu disco “Mar de Sophia” (2006).

Quem ouve a obra de Sérgio Ricardo com atenção, não se surpreende com o fato de ele ser cineasta também. Algumas de suas canções são verdadeiros roteiros musicais que, claro, serviram para musicar alguns dos grandes filmes brasileiros, de diretores como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Alguns exemplos estão em “Ponto de Partida”, como a caymmiana “Barravento” (que não serviu para o filme de Glauber Rocha de mesmo nome, mas foi inspirado nele), “Enquanto a Tristeza Não Vem” (de “Menino da Calça Branca”, do próprio Sérgio Ricardo em parceria com Nelson Pereira dos Santos) e “Deus e o Diabo Na Terra do Sol”, música tema do filme de mesmo nome, de Glauber Rocha, cujo arranjo já vale o disco inteiro. Pena que “Zelão”, que também fez parte de “Deus e o Diabo”, tenha ficado de fora de “Ponto de Partida”.

Além das canções compostas para o cinema, o álbum traz outras canções importantes na carreira de Sérgio Ricardo. A faixa-título é uma delas. “Ponto de Partida” fez parte da peça de mesmo título, de autoria de Gianfrancesco Guarnieri, na qual Sérgio Ricardo foi um dos atores. Também fazem parte do álbum, a capoeira “Palmares”, o samba de protesto “Contra Maré” (“Quem vai pro fundo / Tem é que agitar o braço / Tem é que apertar o passo / Tem é que remar contra a maré”) e, claro, a bossa nova “Folha de Papel”, gravada por meio mundo da Música Popular Brasileira.

No release de “Ponto de Partida”, Sérgio Ricardo comenta: “Este trabalho é diferente de todos os outros pelo refinamento alcançado depois de muita estrada, pelo intercâmbio enriquecedor que tive com essa nova e surpreendente geração (eu sou o único cabeça branca da turma!) e por ter meus filhos junto comigo pela primeira vez. E agora que houve essa troca, essa pororoca de saberes, e eu bebi da fonte da juventude, ninguém me segura!”.

Tomara, Sérgio Ricardo. Tomara!

“Beto Bom de Bola”, infelizmente, não está presente em “Ponto de Partida”, mas, abaixo, segue o clássico vídeo de Sérgio Ricardo interpretando a canção, e quebrando o seu violão durante o Festival da Record de 1967. Mais um momento histórico da carreira de Sérgio Ricardo.

Cotação: ****

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