21 de set de 2008

CD: “SOU” (MARCELO CAMELO) – SEM SE TRANSFORMAR, CAMELO MOSTRA A SUA ALMA

Em uma entrevista recente concedida à Folha de S.Paulo, Marcelo Camelo disse o seguinte: “Quando [você] faz uma música muito distante do que você é, quando tem que evocar um espírito muito distante de você, enfim, se for um ritual de transformação muito radical, é pesado de se fazer como um ofício. Para mim, era muito pesado gritar, ter que me munir de um espírito, ter que me transformar a cada noite”.

Essa declaração é a síntese do primeiro trabalho solo do ex-integrante do Los Hermanos, “Sou”, lançado na semana passada pelo selo Zé Pereira. Fato que a antiga banda de Camelo sempre ousou em alterar a sonoridade quando lhe deu na telha, mas o álbum “Sou” apresenta uma mudança bastante radical. Transitando entre vários estilos musicais, do pop ao clássico, passando por ritmos tipicamente brasileiros, como o samba e o carimbó, e até mesmo por uma rumba com tempero latino, Camelo, literalmente, fez o que quis em seu primeiro trabalho solo.

A maior parte das canções do disco são de difícil assimilação, o que, por um lado, pode ser bom, mas por outro, pode ser ruim. Certamente Marcelo Camelo não se importou com o tal lado ruim. E nem a sua massa de fãs vai se importar.

Quando lançou a canção “Téo e a Gaivota” em sua página no site de relacionamentos MySpace, muita gente perguntou: “Mas será que o trabalho solo de Camelo vai por esse caminho?”. Basta uma rápida audição do disco “Sou” para que a pergunta seja respondida positivamente. Se o álbum “4” do Los Hermanos já foi considerado “difícil” por muita gente, “Sou” consegue ser ainda mais.

“Téo e a Gaivota”, a tal “música estranha”, é logo a primeira faixa do álbum, o que já mostra as pretensões de Camelo. A canção, além de lenta, possui uma sonoridade pouco usual, com direito até a um vibrafone. E os seus primeiros versos só começam a ser cantados após 90 segundos. Com um vocal meio arrastado, o típico anti-single já dá uma pista de que a solidão será um tema comum em todo o CD: “Toda dor repousa na vontade / Todo amor encontra sempre a solidão”.

A faixa seguinte, “Tudo Passa”, também com a participação da banda Hurtmold, transita entre várias sonoridades, e está bem mais próxima do que a sua antiga banda já fizera em “4”. Nesse caso, os antigos fãs vão estranhar menos. Outra faixa que poderia tranquilamente estar em “4”, e que ninguém iria estranhar, é “Mais Tarde”, que, apesar da estranheza inicial, acaba sendo uma das mais palatáveis do CD.

E por falar no Los Hermanos, “Liberdade” é uma música que Camelo já havia cantado com a banda em um programa de televisão. Mas aqui as coisas estão bem diferentes. A canção ganhou uma interpretação intimista que conta apenas com a voz e o violão de Camelo, além da linda sanfona de Dominguinhos.

Mas “Passeando”, a terceira faixa do álbum, é outra que prova de que Marcelo Camelo realmente está em um momento mais contemplativo, bem distante daquela época em que tinha que se “transformar a cada noite”. A faixa, praticamente instrumental, com apenas três versos (“E lá vai Deus sem sequer saber de nós / Saibamos pois / Estamos sós”), mais uma vez toca na tal solidão.

“Doce Solidão” (olha ela aqui de novo!), com apenas seis versos e uma melodia assobiável, gruda na cabeça, assim como “Copacabana”, uma divertida marchinha de carnaval que vai fazer a alegria dos fãs órfãos de Los Hermanos, que já podem preparar a serpentina para os shows solo de Camelo. Os espirituosos versos da música (“O shopping da Siqueira é um colosso / E as gordinhas um alvoroço” ou “O bairro do Peixoto é um barato / E os velhinhos são bons de papo”) garantem um dos melhores momentos de “Sou”.

E dentre os ritmos tipicamente brasileiros, não é só o samba que é prestigiado por Camelo em seu primeiro disco solo. “Menina Bordada” é uma espécie de carimbó ‘indie’, e que lembra um pouquinho a sonoridade de Paul Simon em seus últimos trabalhos. E do Brasil, Camelo vai direto para Cuba em “Vida Doce”, uma rumba de respeito que certamente deixaria Ernesto Lecuona feliz.

Além de Dominguinhos e da banda Hurtmold, duas artistas também participam de “Sou”. Clara Sverner empresta o seu talento ao piano em “Saudade”, faixa instrumental que, de certa forma, quebra o ritmo do álbum, e uma nova versão para “Passeando”, também instrumental e que funciona como uma espécie de ‘coda’ de “Sou”. (“Saudade” também tem outra versão no disco, que conta apenas com a voz e o violão de Camelo.) A revelação Mallu Magalhães, ainda que muitíssimo superestimada pela mídia, faz bonito cantando os versos em inglês de “Janta”, enquanto Camelo se desdobra em um singelo contracanto.

Marcelo Camelo também aproveita a oportunidade de seu primeiro trabalho solo para pôr voz em uma de suas melhores composições, e que está presente no primeiro disco de Maria Rita. Com uma interpretação minimalista de Camelo, “Santa Chuva” é um grande momento do álbum, apesar de o arranjo de cordas ter ficado um pouco ‘over’.

É inegável que “Sou” tem os seus momentos fracos. Mas é inegável a coragem de Marcelo Camelo ao trocar a banda mais influente do país na última década, por um projeto solo que nunca se sabe aonde vai chegar. E a honestidade com que foi feito esse trabalho é o maior trunfo do compositor. O ouvinte mais atento, além de poder escutar boas composições, vai poder ouvir, nas entrelinhas de “Sou”, a alma de Camelo. E poder passar isso para um disco não é pouca coisa.

Abaixo, um vídeo da faixa “Copacabana”, registrado durante a sua gravação no estúdio.

Cotação: ***1/2

Um comentário:

Thiago disse...

O Camelo e foda...

:D