28 de nov de 2010

Resenhando: Kings Of Leon, Milton Nascimento, Elton John & Leon Russell, Diogo Nogueira, Elvis Costello

“Come around sundown”– Kings Of Leon
Há algum modo diferente de começar a resenha de “Come around sundown” dizendo que o Kings Of Leon era uma banda bacaníssima, mas que se transformou em um engodo depois que cismou em fazer parte do mainstream? Depois da primeira audição do álbum, a resposta é não. Assim como o seu antecessor (“Only by the night”, de 2008, aquele da faixa “Sex on fire”), esse “Come around sundown” peca pela sua sonoridade forçadamente pop, bem diferente dos álbuns “Youth and young manhood” (2003) e “Aha shake heartbreak” (2005). Veja bem: não é pecado nenhum uma banda ser pop, é claro. Mas o Kings Of Leon erra a mão pela segunda vez, deixando de lado aquela sua sonoridade original, meio rural, meio rock, com um quê de Strokes. No novo trabalho, a banda de Nashville deixa claro que optou por se transformar em uma banda de rock de arena, como, talvez, um U2. Só falta fazer um som digno de rock de arena, e não o pop descartável, com ar extremamente pretensioso, de faixas como “The end” e “Radioactive”. O que dá mais pena é constatar que “Come around sundown” tem lá os seus bons momentos, representados por canções como a folk “Back down south”, a bonita “Pyro”, além de “Mi amigo”. Nessas faixas, a família Followill mostra sinceridade, algo que lhe vem faltando ultimamente. Mas ainda é o suficiente para acender uma pontinha de esperança de que o Kings Of Leon pode voltar a ser aquela banda bacana do início dos anos 00.

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“...E a gente sonhando” – Milton Nascimento
Em 2008, Milton Nascimento lançou, ao lado do Jobim Trio, um bonito tributo a Antonio Carlos Jobim. Nele, não havia nenhuma música inédita de Bituca. Então, podemos dizer que “...E a gente sonhando” é o primeiro álbum de inéditas de Milton desde “Pietá”, de 2002. E a espera valeu a pena? Certamente, sim. Diferentemente de seus contemporâneos da MPB, Milton sempre aparece com um projeto realmente novo. Ou seja, assim como “Clube da esquina” (1972), “Milagre dos peixes” (1973) e “Pietá”, esse “...E a gente sonhando” não é “apenas” um disco com canções inéditas, mas um álbum conceitual, como se quisesse inaugurar um movimento na música brasileira – embora o novo trabalho não tenha a mesma força dos outros três. Mais uma vez, Bituca investe em novos nomes da cidade mineira de Três Pontas. A bonita balada pop “Olhos do mundo”, por exemplo, é de autoria de Marco Elizeo Aquino (co-produtor do álbum, ao lado de Milton) e de Heitor Branquinho. Os dois artistas da nova geração trespontana também dividem o microfone com Bituca. Já a bela “Gota de primavera” é uma parceria de Milton com Pedrinho do Cavaco. O pianista Ismael Tiso Jr., por sua vez, é o responsável pelo samba-jazz “Do samba, do jazz, do menino e do bueiro”, ao lado de Miller Sol. Ele também divide os vocais com Milton. Flávio Henrique é o autor da letra de “Amor do céu, amor do mar”, cujos versos fazem a ponte com o passado ao relembrar a grande intérprete de Milton, Elis Regina (“Quando sonhei Elis Regina / Um coro de anjos se fez escutar / Meu coração desamparado se encheu de muitas cores / Cobriu todo ar”). Paulo Francisco (Tutuca) canta a canção com o padrinho. E o passado volta em duas parcerias com Fernando Brant, “Me faz bem” (já gravada por Gal Costa, em seu incompreendido “Lua de mel – Como o diabo gosta”, de 1987) e “Espelho de nós” (gravada por Simone de 1989), cujo dueto com o jovem Bruno Cabral faz a gente se sentir na cozinha de Milton. O dueto se repete na faixa-título, composta por Milton em 1965, e gravada (em versão instrumental) pelo Tempo Trio (primeira banda do Bituca). Como nada pode ser tão perfeito, são dispensáveis as regravações de “Adivinha o quê” (de Lulu Santos, e que ganhou um molho mezzo latino, mezzo jazz), “Resposta ao tempo” (invencível na voz de Nana Caymmi) e “O sol”, uma balada pop do Jota Quest, que é pequena demais para a voz de Milton Nascimento. Dificilmente “...E a gente sonhando” terá a mesma força de um “Clube da esquina” ou até mesmo de um “Pietá”. Mas não se pode negar que representa um enorme sopro de criatividade no cada vez mais anêmico mercado brasileiro de discos. Que o próximo não demore tanto.

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“The union” – Elton John & Leon Russell
“The union”, novo álbum de Elton John (dessa vez, em parceria com Leon Russell, multiinstrumentista que já gravou com Jerry Lee Lewis e Rolling Stones, entre outros), é a prova definitiva de que o compositor britânico não precisava ter feito o papelão que fez em sua última turnê no Brasil em 2008: cantar os seus sucessos mais manjados, em versões insossas e com uma voz sofrível. Explico: os últimos trabalhos de Elton John (por exemplo, “Songs from the west coast”, de 2001, “Peachtree Road”, 2004, e “The captain and the kid”, 2006) são bons demais para que ele viva apenas de seu glorioso passado. E “The union” vem se juntar a esse grupo de bons álbuns. A história da parceria entre Elton John e Leon Russell é a seguinte: quando Elvis Costello estreou o seu programa de televisão “Spectacle”, em 2008, Elton John elogiou muito o estilo de Leon Russell (que andava meio sumido, se apresentando em pequenos bares) tocar piano. A troca de gentilezas continuou por um tempo até que os dois resolveram entrar em estúdio, o que resultou no álbum ora lançado, produzido pelo onipresente T Bone Burnett. Deixando o pop descarado de lado, e optando por um rock mais tradicional, nesse novo álbum (gravado ao vivo em estúdio), Elton John relembra os seus melhores momentos, como “Tumbleweed connection”, de 1970. Embora a maioria das pessoas vá dizer que “The union” é “o novo álbum do Elton John”, é bom deixar claro que Leon Russell é o responsável pela composição de boa parte das faixas (outras são de Elton John com o parceiro Bernie Taupin), bem como pelos vocais das mesmas. Certamente, juntamente com o produtor, Russell direcionou o estilo das canções para algo mais adulto e menos pop. Destaque para o rock “Monkey suit”, a bluesy “I should have sent roses” e a linda “Gone to Shiloh”, com participação especial de Neil Young nos vocais. No final das contas, foi bom para ambos os lados. “The union” ressuscitou a carreira de Russell, e deu novos ares a de Elton John. (Lá fora, saiu uma edição especial do álbum, com duas faixas bônus e um DVD com documentário dirigido por Cameron Crowe.)

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“Sou eu – Ao vivo” – Diogo Nogueira
Não é de se estranhar que, hoje em dia, um artista tenha mais álbuns ao vivo lançados do que de estúdio. Diogo Nogueira é um deles. “Sou eu – Ao vivo” (também em DVD) é o segundo registro ao vivo do sambista. Gravado no Vivo Rio, durante a turnê de divulgação de “Tô fazendo a minha parte” (2009), o novo disco junta sucessos colecionados na curta carreira de Diogo Nogueira às músicas do trabalho que estava sendo divulgado à época da gravação. “Sou eu – Ao vivo” tinha tudo para ser um mais do mesmo (como a maioria dos CDs brasileiros que estão nas prateleiras das lojas) se não fossem as participações especiais, que dão um tempero diferente ao projeto. Chico Buarque, presença bissexta nos palcos, prestigia Diogo Nogueira com “Homenagem ao malandro” e “Sou eu”, essa, ao lado de Hamilton de Holanda e de Ivan Lins. Esse último, por sua vez, comparece na sua “Lembra de mim”, que está presente somente no DVD. A bonita parceria de Zeca Pagodinho com Almir Guineto, “Lama nas ruas”, também conta com Hamilton de Holanda. Aliás, é notável (e saudável) o fato de Diogo Nogueira ter deixado o nome do seu pai, o saudoso João Nogueira, de lado, para investir em outros compositores, como Leandro Fregonesi e Ciraninho (em “Amor imperfeito”, com participação de Alcione) e a dupla Serginho Meriti / Claudinho Guimarães (“Da melhor qualili”). Só poderia mesmo ter dispensado a brega até a alma “Vestibular pra solidão” (de Alexandre Pires) e o sambão “Deixa eu te amar”, de Mauro Silva, Camillo e Agepê, e gravado por Simone, no ano passado. De resto, esperamos que a EMI não mande Diogo Nogueira a gravar mais um álbum ao vivo no ano que vem.

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“National ransom” – Elvis Costello
A análise da discografia de Elvis Costello é das coisas mais complicadas para quem trabalha com música. Se o compositor inglês lança hoje um álbum de rock, certamente, no ano que vem, virá um de jazz, e depois um clássico, e por aí vai. Então, chega a ser curioso, o fato de Costello ter mantido a sonoridade básica (algo entre o bluegrass e o rock, transitando um pouco pelo folk, blues, skiffle em “A slow drag with Josephine”, e até balada sinatriana, caso de “You hung the moon”), o mesmo produtor (T Bone Burnett) e até mesmo uma capa bem parecida com a do álbum anterior, “Secret, profane & sugarcane” (2009). Aí você vai me perguntar: então não há diferença entre ambos? Eu respondo: há sim, e para muito melhor. O que já era ótimo no álbum lançado no ano passado, ficou melhor nesse “National ransom”. O motivo é simples. Nesse novo disco, Costello foi menos pretensioso, abusando mais de rocks básicos e melódicos, como em seus primeiros álbuns, casos de “Five small worlds” e da excelente faixa-título. Pode ter certeza que “National ransom” é o melhor álbum de Elvis Costello desde “King of America” (1986), produzido por – quem?? – T Bone Burnett.

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Abaixo, “Radioactive”, single de “Come around sundown”, do Kings Of Leon, em versão ao vivo no SNL: