2 de set de 2008

CD: “MADRUGADA” (MART’NÁLIA) – MART’NÁLIA EM TODA A SUA PLENITUDE (ATÉ AGORA...)

Embora pouca gente saiba, Mart’nália não vive somente do nome de seu pai, o grande sambista Matinho da Vila. Desde 1987, quando gravou o seu primeiro álbum, a cantora vem buscando o seu lugar ao sol. Após uma passagem pelo Batacotô, no início dos anos 90, a sambista voltou a gravar discos solo, tendo alcançado relativo sucesso quando estava no selo Natasha, por onde gravou “Pé Do Meu Samba” (2002) e “Mart’nália Ao Vivo” (2004). Mas foi no ano seguinte, já no selo Quitanda, de Maria Bethânia, que a cantora lançou o belíssimo “Menino Do Rio”. Logo após, em 2006, foi a vez do ótimo “Mart’nália Ao Vivo Em Berlim”, também em DVD.

Mas é nesse novo CD, “Madrugada”, que Mart’nália mostra porque é uma das melhores cantoras do Brasil atualmente. Sem o resquício dos sambas baianos que marcaram “Menino Do Rio”, no qual foi acompanhada por músicos da banda de Maria Bethânia (e ainda teve a produção do maestro da baiana, Jaime Alem), “Madrugada” apresenta Mart’nália em um ambiente do qual se mostra muito mais íntima.

A cantora dedicou o novo trabalho “às boas noites que passa bem acordada”. Mas “Madrugada” pode ser considerado, com algumas exceções, um disco solar. Com muito mais peso do que seus trabalhos anteriores, “Madrugada” é um típico disco de samba carioca, sem aquela cara industrializada que permeia o trabalho de alguns grandes sambistas que tanto sucesso fazem atualmente.

Mas logo a primeira faixa do disco, “Alívio”, não mostra realmente o valor de “Madrugada”. A parceria do produtor e baixista Arthur Maia com Djavan não funciona muito bem na voz de Mart’nália. O soul abolerado, verdade seja dita, é um início bem morno. Sorte que “Tava Por Aí”, um samba-pop bacaníssimo – um dos melhores do disco –, composto pela própria com o fiel parceiro Mombaça, coloca “Madrugada” nos eixos. Com o peso do surdo e uma grande letra (“Sou Zé Malandro, sou de rua / E bem que eu gosto / São Jorge é quem manda na lua / Me disse que eu tudo posso”), a segunda faixa mostra realmente o que o ouvinte pode esperar de “Madrugada”.

As seis canções seguintes seguem o estilo de “Tava Por Aí”. “Deu Ruim”, um samba mais lento, com destaque para os tamborins de André Siqueira, desce bem. Mas não tão bem quanto “Ela é a Minha Cara”, música de Celso Fonseca, produzida pelo próprio. Misturando uma guitarra jazzy (também de Fonseca) com surdos e tamborins e uma bela letra de Ronaldo Bastos (“Causa reboliço aonde passa / Desce mais redondo que a cachaça / Ela é a fulana de tal”), a música é outro bom momento do disco. Celso Fonseca também produziu duas regravações, digamos, um pouco perigosas: “Batendo a Porta”, clássico de 1974, do segundo disco de João Nogueira, e “Sai Dessa”, gravada por ninguém menos do que Elis Regina em seu último disco. Difícil dizer em qual Mart’nália se sai melhor. Celso Fonseca transformou “Sai Dessa” em um elegante samba jazzificado, que ficou bem parecido, mas, ao mesmo tempo, bem diferente da quase insuperável gravação de Elis Regina. E em “Batendo a Porta”, a ótima guitarra (jazzística, mas uma vez) de Celso Fonseca, quase ofusca a excelente interpretação de Mart’nália.

Já “Não Encontro Quem Me Queira” e “Fé”, ambas produzidas por Arthur Maia são mais populares (e isso não é uma crítica) do que as trabalhadas por Celso Fonseca. A primeira, composição de Thiago Mocotó, segue o estilo despojado dos Demônios da Garoa, enquanto que a segunda, com a letra ‘esperançosa’ de Jorge Agrião e Evandro Lima (“A gente tem que levar fé / Acreditar não sucumbir / Na vida sabe como é / Cuidado pra não se iludir”), poderia muito bem fazer parte do repertório de Zeca Pagodinho.

As quatro faixas seguintes poderiam realmente representar a “Madrugada” do álbum. São canções mais introspectivas e com arranjos mais discretos. Em “Angola”, na qual, como o próprio título já sugere, Mart’nália se aproxima dos ritmos africanos (cheia de marimbas, congas e timbales), se afastando do samba, o que faz dela apenas uma canção mediana. A regravação de “Alegre Menina”, música que alçou Djavan ao estrelato, é o oposto de “Sai Dessa”. Se na canção gravada por Elis, a filha de Martinho se saiu muito bem, na composição de Dori Caymmi e Jorge Amado, o resultado não foi dos melhores. Apesar de Mart’nália cantar com um estilo bem próprio, a sua gravação não supera a (esta sim, pelo visto, insuperável) de Djavan. E a participação de Luiza Possi na faixa é dispensável.

Mas quando regrava a obra de seu pai. Mart’nália se sai bem melhor. “Tom Maior”, clássico do primeiro disco de Martinho da Vila, ganha mais uma interpretação – Marina Lima já a havia registrado em seu “Acústico MTV” – primorosa. Na faixa seguinte, “Sem Dizer Adeus”, a cantora ainda consegue se superar. Das canções que não fazem parte do universo do samba, esta, de Paulinho Moska, é, sem dúvidas, a melhor. A voz de Mart’nália juntamente com o violoncelo de Lui Coimbra e o clarinete de Ademir Jr., tudo envolto por uma belíssima letra (“Se eu não sei o nome do que sinto / Não tem nome que domine o meu querer / Não vou voltar atrás / O chão sumiu a cada passo que eu dei”) fazem desta canção outro grande destaque de “Madrugada”.

E como a “Madrugada” só termina quando o dia amanhece, Mart’nália encerra o disco com uma sacada genial do produtor Arthur Maia. A clássica canção norte-americana “Don’t Worry, Be Happy!” em ritmo de samba, cheia de cuíca, pandeiro, tamborim e surdo já pode ser considerada uma das gravações do ano. A adaptação da letra também dá um charme todo especial à faixa (“Don’t worry pra não se estressar / Be Happy para se alegrar... / Relax e tudo fica diferente!”). E já no início da canção, a sambista manda o seu recado: “Tô indo lá pros States, diretamente de Vila Isabel”. Tem tudo para virar um grande hit lá fora...

O release do disco diz o seguinte: “Madrugada não é um ‘prosseguimento’ ou uma ‘evolução’ de ‘Menino do Rio’, (...) é seu oposto, seu complemento, o outro lado daquela mesma moeda. A própria cantora tem isso claro na cabeça. ‘Menino do Rio deu super certo e eu sentia no ar aquela expectativa: ‘e agora, o que a Mart’nália vai fazer?, como vai superar esse disco?’, ela conta. ‘Decidi que não queria superar nada, mas seguir o caminho contrário. E fui.’”

Sinto informar, mas, querendo Mart’nália ou não, acabou superando. E muito!

Cotação: ****

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